Debaixo do chafariz, o pelourinho

O Chafariz e seu Significado Histórico

Localizado no centro da praça emblemática da cidade, um chafariz de origem francesa simboliza um passado que é pouco explorado e conhecido. O pesquisador Nikolas Corrêa, responsável por vários projetos de resgate histórico, como “Pelotas Antiga”, evidencia a conexão entre o chafariz das Nereidas e o antigo pelourinho da cidade. Para Corrêa, essa imagem reflete um processo histórico de embelezamento que resulta no apagamento das contribuições da mão de obra negra, que foi fundamental para a construção da localidade.

Histórias de Resistência e Esquecimento

A história abordada por Corrêa não é apenas uma narrativa do passado, mas uma luta para trazer à luz as vozes que foram esquecidas ao longo dos anos. Ele destaca que a cidade aprovou a abolição da escravidão em 1888, mas o caminho para a liberdade não foi tão simples quanto parece. Menos de 30% dos negros foram libertos nessa época, e muitos outros permaneceram escravizados mesmo após a abolição oficial.

Os Projetos de Resgate de Nikolas Corrêa

Diante desse contexto, o projeto “Pelotas Antiga Fragmentos” surge como uma iniciativa para contar a história dos casarões da Praça Coronel Pedro Osório. Este roteiro guiado, que terá sua estreia em 25 de julho, pretende reunir informações que antes estavam dispersas e não documentadas, proporcionando ao público um entendimento mais profundo da história da cidade.

A Importância da Mão de Obra Negra na Construção

Um dos focos centrais da pesquisa de Corrêa é a mão de obra negra que, em muitos casos, permanece invisível na narrativa histórica local. Na sua pesquisa, ele questiona: “Quem colocou o tijolo e fez o estuque?” A resposta aponta que a mão de obra negra foi essencial para a construção dos edifícios e da identidade da cidade.

Reescrevendo a História da Cidade

Para Corrêa, a historiografia tradicional muitas vezes favoreceu figuras elitistas, como os barões da época, enquanto silenciou aqueles que realmente trabalharam para construir a cidade. Ele questiona as narrativas que exaltam apenas os poderosos, ressaltando a necessidade de incluir as histórias e experiências dos trabalhadores, especialmente da população negra.

Como a Cidade Comemora seu Passado

A reabertura do Theatro Sete de Abril não é apenas um evento cultural, mas representa uma nova fase na valorização do patrimônio histórico de Pelotas. Para Corrêa, esse momento deve vir acompanhado de um reconhecimento das contribuições de todos os segmentos da população, incluindo aqueles que, historicamente, foram esquecidos.

Desmistificando a Abolição da Escravatura

A narrativa sobre a abolição da escravatura é muitas vezes romantizada. Corrêa enfatiza que, após 1888, a escravidão persistiu na cidade por mais tempo do que se imagina, perpetuando desigualdades que ainda são visíveis hoje. Assim, o trabalho de desvendar essa história é crucial para entender as raízes das desigualdades sociais contemporâneas.

O Impacto Cultural dos Passeios Guiados

Projetos como o “Pelotas Mal Assombrada” já demonstraram que há um público ávido por conhecer as camadas mais obscuras da história local. A popularidade dessas caminhadas reflete uma busca por um entendimento mais amplo e inclusivo das narrativas da cidade. O crescimento da adesão a esses passeios é um indicativo de que as pessoas querem explorá-las em profundidade.

Visibilidade para Narrativas Ocultas

A importância de dar visibilidade a essas narrativas é evidente. Corrêa trabalha para trazer à tona as realidades que foram ocultadas, utilizando uma linguagem acessível ao público, com o objetivo de educar e sensibilizar sobre a rica diversidade da história de Pelotas e a relevância da mão de obra negra na construção dessa história.

O Futuro do Pelourinho na Memória Coletiva

Com a continuação dos projetos de resgate histórico, há uma esperança renovada de que as narrativas subterrâneas da cidade passem a ocupar um lugar de destaque na memória coletiva da população. A cidade de Pelotas, com seus 214 anos de história, está em um processo de revisão de seu passado, permitindo que novas vozes e histórias sejam incluídas, movendo-se em direção a uma maior equidade e inclusão social.